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Sobre Aninhas - De Brasília


Galatea das esferas - Salvador Dalí

Aninha comprou um doce de goiabada cascão, veio radiante para casa, queria sentir o doce da infância. Sua avó sempre fazia guloseimas e mais guloseimas para os netos. Tinha sempre um puxão de orelha para o pirralho que furtava uma quantidade acima do permitido. No fundo, todos faziam isso, mas havia um ou outro que tinha coragem de ultrapassar o limite alcançando o exagero.

Aninha sentou-se à mesa, hoje o dia estava ensolarado, havia poucas nuvens, observava tranquilamente pela janela enquanto saboreava o doce. Este, em suas memórias parecia muito mais saboroso… No fim, beliscou apenas um pedacinho e logo ficou completamente frustrada, desgostosa. Cadê o gosto da infância? Cadê o carinho da avó? O sabor…

Não tinha mais, na verdade, era possível que ela não gostasse mais daquele gosto açucarado de goiaba. Relembrou ainda que quase todo domingo costumava sair com as amigas para um piquenique, compravam vários quitutes, tomavam sol, ouviam música, colocavam as fofocas em dia, tudo com muito charme, usavam enormes chapéus e se sentiam dondocas muito felizes por sinal.

Hoje, Aninha não tinha mais esse hábito, achava que não combinava mais com seus humores, suas idas e vindas apressadas pela vida, seus objetivos ferozes, ambiciosos e sua circunspecção. Lembrou-se ainda que colecionava vestidos floridos, de todas as cores, e que aos sábados se juntava com amigos aos bares, sempre estreando um vestidinho ou outro, todo leve, solto e cheio de mil flores. Floreando, fumando e bebendo. Hoje, percebeu que também perdera esse hábito, não usa mais flores, enterrou as últimas no túmulo de sua mãe. A vida era simplória, agora básica, com pouca cor. Em choque olhou novamente para o doce, tentou encontrar uma única estampa de florzinha em sua cozinha. Tudo meio preto e branco, nada havia ali. Para onde fora aquela Aninha de seus pensamentos? Quando ela decidiu mudar? Em que momento escolheu ser isso e não aquilo?

Teve vontade de sair correndo, ir comprar um vestidinho desses para florescer, chamar as amigas para um piquenique, depois pararem sorrateiramente no fim da tarde em algum bar com samba e aconchego. Mas, cadê?

Aninha, sorriu e disse para si mesma que ela era uma completa estranha e que no fundo precisaria se conhecer, suas lembranças desbotadas falavam de uma Aninha longínqua, agora era preciso se redescobrir. Talvez, fosse o tipo de coisa que acontecesse em alguns momentos da vida ou apenas na meia idade. As rugas vão rasgando a pele e modificando também as personalidades. Ela podia sentir no peito algumas ranhuras, alguns incômodos que a fizeram ser tão diferente da imagem que ela mesma guardou de si. Fez um café preto, amargo, sem açúcar, tomou. Pegou uma caixa de fotos, e foi separando todas as Aninhas que já fora. Foi conhecendo uma a uma, com um tom sério, crítico e por fim amável. Recebeu de braços abertos todas as suas nuances. Colou tudo no chão, deitou, e foi trilhar sobre os retalhos de si. Afinal, de que adianta se metamorfosear sem direção? Voou, ao fim da tarde, foi visitar o túmulo da mãe, levou rosas, prendeu uma em seus cabelos, deixando que o vento agraciasse todo o florir. Enfim, refloresceu.


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