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  • Por: Paloma C. Mamede
  • 27/12/2021

O tempo parou

Faz um tempo que Feliciano percebeu que o tempo parou. Todo dia é o mesmo dia, mesmo dia da semana, mesmo dia do mês, mesmo mês, mesmo ano e afins. O calendário parou de ser entregue na empresa, não precisava mais renovar.


Foto: A persistência da memória - Salvador Dalí

Faz um tempo que Feliciano percebeu que o tempo parou. Todo dia é o mesmo dia, mesmo dia da semana, mesmo dia do mês, mesmo mês, mesmo ano e afins. O calendário parou de ser entregue na empresa, não precisava mais renovar. Tudo que se passava hoje deveria ser entregue hoje, o mundo se tornou para o agora. Não havia depois, nem um segundinho de descanso a mais ou a menos. Não havia feriados, nem aniversários, nem bebedeiras, festivais, nada disso, porque o tempo parou e apenas o pobre Feliciano tinha saudades de quando o tempo andava pelos dedos.

Feliciano comentou com o porteiro que o tempo havia parado, ele concordou e explicou que fora uma sequela das doenças. Foram mais de 50 tipos nos últimos anos, todas com os mesmos sintomas. Entretanto, com nomes variados. Era divertido criar nomes diferentes para a mesma coisa. Feliciano concordou. Tossiu um pouco, pegou o lenço que estava guardado no bolso, limpou o suor da testa, os dias estavam mais quentes que o normal desde que o tempo parou.

Após aquela conversinha rotineira, foi subindo a rua a pé, ele ainda usava máscara por hábito, mas ninguém mais usava tal apetrecho. Fazia tempo que ninguém morria desde que o tempo parou. Contudo, a verdade também era que ninguém vivia desde que o tempo parou. O sorriso se tornou um esticar de lábios mecânicos, ninguém mais sabia o nome de ninguém além do seu próprio conjunto de letras. As pessoas chamavam o porteiro de porteiro, o professor de professor, o dentista de dentista, e assim por diante. Feliciano era o Feliciano, pois na empresa que trabalhava não tinha uma profissão, ele tava ali para tudo, qualquer situação que surgisse chamavam o moço Feliciano e ele revolvia, assim ganhava uns trocadinhos, uma espécie de gorjeta semanal e que nem era salário. Ele morava de favor na casa do advogado que era seu irmão e por um milagre ainda não tinha se cansado dele de vez.

Tinha noites que o andarilho Feliciano dormia na rua, eram aquelas noites que o advogado saía e esquecia de deixar a chave naquele lugarzinho específico que só os dois sabiam. O advogado passou a sair mais depois que o tempo parou e o pobre Feliciano com seu rosto esquelético esculpia vários sorrisos involuntariamente, apenas por ter aprendido a ser gentil depois que o tempo parou. A notícia daquele dia era que mais uma variante havia chegado e que as pessoas deveriam pegar aquele kit divulgado anos atrás e esperar onde estivessem que o tempo voltasse a correr.

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