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Não seremos mais os mesmos - De Brasília

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Foto: Exposição ComCiência, de Patricia Piccinini
Paloma C. Mamede 26/04/2021

Fui ao mercado apressadamente, tentando ainda não tocar em nada desnecessário. Estava quente demais, escorria suor do meu rosto por entre a máscara. Sinto falta de respirar normalmente pelas ruas, sem medo, sem dor ou até sem burocracia. Viver se tornou uma coisa restrita, não é? Mas, estamos aqui depois de mais de um ano no mesmo ATO PANDÊMICO. “Respira devagar, sem pressa, não seca o suor com as mãos, já está passando, logo você vai chegar em casa”.

Momentos como esse me lembram de uma situação no mínimo extravagante. Estava eu em 2016 em uma exposição no CCBB de Brasília. O tema era “ComCiência” de uma artista contemporânea australiana, Patricia Piccinini. Ela revelou por meio de suas esculturas em alta definição um possível mundo cheio de bizarrices. Seres completamente destoantes do humano. Todavia, ela considerava no horror uma possível amabilidade do futuro. 

Não seremos mais os mesmos. Suspirei. Depois de ver cada composição, imagens de amor entre o desconhecido, homo sapiens mesclados com essa nova espécie, misturas aliens ou até mesmo animalescas de coisas que já vimos em qualquer filme de ficção científica, e uma mensagem ruidosa de abrace o novo, ame o novo, as diferenças vão além do concreto. Havia um sentimento caótico de susto, medo e certa serenidade de ainda não estar ali.

Refletindo sobre possíveis mudanças na pele, no corpo, nas formas, na concepção da vida. Podemos ver com teimosia que a raça humana já não é a mesma, passamos por inúmeras modificações por dentro e por fora, a evolução toca e atiça mesmo que amedronte. Será o começo de mudanças drásticas nas feições humanas? Será que essa mera pandemia poderia ser um boom de ativos orgânicos trabalhando juntos em busca de um corpo que suporte melhor todos os contratempos da vida intimamente moderna? Não se sabe. Não se soube. Nem se saberá. Pois, apenas viveremos todas as inconstâncias que horripilam. Contudo, trazem conforto: somos adaptáveis. 

Seja em formato de foca, primatas rústicos, tendo ou não deformações cutâneas. Vivendo com vírus, desastres naturais, guerras ambiciosas, armas indevidas que acabam com o fôlego de milhares em segundos. Não importa. Somos oscilação. Era essa a mensagem de Piccinini, anos antes do Covid-19. Já havia uma pretensão de um alerta de que tudo pode mudar. Tudo mudou. É o momento mais virtual de toda a história da humanidade. Com certeza nosso corpo, nossas emoções, nossas palavras e ações estão se adaptando a esta nova era. Será que algum dia andaremos livres e soltos sem máscaras por aí? Será que vamos comprar um pastel na rodoviária e comer na fila do ônibus sem nenhuma preocupação evidente? Ou será que o mundo mudou e esqueceremos de como era antes? 

Fica no ar um murmúrio que não pode ser silenciado; seja flexível, abrace as novas nuances, sejam elas horrendas ou inquestionavelmente belas. Esse balbucio que apenas a arte prevê, antes que todos estejam ComCientes. Com mascáras ou sem máscaras a raridade da existência progride, virtualmente ou presencialmente, afinal a alma sempre encontra um jeito de reverberar.

 

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