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Laura e os Anéis de Saturno II - De Brasília


Foto: All the Glittering Stars / NASA

— Você falou com as estrelas hoje?

— Todo dia, um bucadinho aqui, um bucadinho ali, elas me ouve, ouve bem até demais…

— Mas, me diz, o que vocês conversam, Dona Laura?

— Vish, aí eu tenho que pensar. Tem as istrela da terra e as que fica lá no alto, as do alto tão sempre aqui, as da terra quase num vejo.

— E as do alto falam do quê?

— Tudo que num deu pra mim, tudo que num deu pra tu, tudo que num deu…

— E as da terra?

— Essas já se foram, tudim na mão dos homi.

— Dona Laura, e a senhora… qual tipo de estrela você é?

— Hmmmmmmmmmm…. —  Arfou —  quem dera, quem dera mermo. Eu sou dessas isquecida que nem dá brilho, dessas nem polida, nem nada, dessas que alguém pisou e quebrou.

— E, os planetas, você se lembra. Saturno que era lindo?

— Ah, tudo mintira! Lenda dessas que nunca existiu.

— E o sol, existe?

— Istrela, eu num sei. Sei que isquenta, amanhece e dorme. Mas, num sei!

— Dona Laura Menezes, o que a senhora faz, como ganha a vida?

— Eu iscuto as istrela e elas me iscuta.

— Isso é tudo?

— Num isquece de falar com as istrela, elas viram um pozim e some, mas tão aqui ó, tudo caída na terra.

Laura que já fora outrora quase astronauta, que sonhou com os anéis de Saturno, suspirou pelos cantos, poetizou o céu e a lua. Batalhou com as mãos sangrando nessa vida, naquela praça, vendendo de tudo para manter a família. Fruto de um, dois, três, quatro, infinitos abandonos. Nunca abandonou um serzinho, nem as estrelas. Terminou a frase, deitando no banco da praça como se fosse cair. Istrela, era nada mais que sua companhia entre as linhas imaginárias dos mundos. Fechou. O coração foi parando devagar, sem medo do escuro. Foi então se tornando matéria negra, densa, pesada, sem fim. Não tinha RG, não tinha certidão, foi enterrada ali perto em uma vala. Todavia, suas confidentes nunca a esqueceram, sempre iluminando o pó da terra, a minúcia, o cantinho da Senhora Menezes. 

Quem dera, quem dera, quem dera… 


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