• Quinta-Feira, 01/10/2020
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Jerônimo Azulado - De Brasília

Tenho certeza que fui pintada de amarelo junto, mas não tem problema, pois de todas as cores brasilienses, amo esse amarelo ipê! Pois bem, desci da passarela cheguei na parada, é aquela em frente à UCB. Observo que um menino desce loucamente de um ônibus azul. Ele também estava de blusa azul: APAE-DF. Jerônimo estava irritado, ele aparentava ter menos de 16 anos, desceu em um vulto, e saiu falando diretamente com os desconhecidos da parada. Ele olhava nos olhos deles como se fossem amigos de infância, muita confiança... E, logo veio o desabafo: “Eles ficam me expulsando do ônibus”.

As palavras eram trôpegas e se atropelavam, ele parava em uma vogal ou outra... gaguejando ferozmente. “Roubaram minha carteirinha, é por isso que tô usando essa blusa aqui... Eles me deixam muito irritados, eles me expulsam, não tem respeito, por que eles me jogam pra fora?”. As pessoas ignoravam Jerônimo. Ele não ligava, continuava seu discurso descompassado... Eu permaneci calada, afinal nenhuma daquelas palavras foram para mim, eu estava de ouvinte bem de longe. E, também eu não saberia como me pronunciar sobre a situação, eu senti a dor do rapaz, mas não saberia como ajudá-lo.

“Eu sou estudante de escola, moro em Ceilândia, eles não podem fazer isso”. Daí, meu ônibus chegou e para minha surpresa Jerônimo entrou nele, fiquei meio desconfiada, pois meu ônibus é amarelo e para a minha cidade ônibus azuis estão extintos. Entrei no ônibus, muito circunspecta... Continuei observando Jerônimo de longe, nesse clímax da situação, já estava achando que ele estava atramado com alguma vingança contra os ônibus. Oh Deus! O que está acontecendo por aqui?

Fui em pé, o ônibus balançava, eu olhava pela janela procurando um significado para o caos dos dias, tudo parecia anormal para mim. Havia sangue azul por todos os lados, com certeza havia, mas eu não via, afinal estava estupidamente encantada com meu amarelo ipê. Os raios solares estavam bonitos, amarelados e belos. Eu não podia culpar o absurdo daquela cor inebriante. Mas, logo vi um pouco de verde e voltei a ouvir as reclamações de Jerônimo azulado.

“A minha carteirinha vai demorar pra chegar”. Ele explicava para o cobrador, ele já estava dentro do ônibus, em pé e feliz. Muito feliz por sinal, por não ser barrado mais uma vez. Ele abordava um ou outro passageiro, contando a sua história. A gagueira já havia sumido junto com a irritação que deu lugar ao deslumbre. Ele olhava calmamente as janelas do ônibus, e eu me perguntei se ele também estava aturdido com a aura amarelada da cidade. Perto dele eu só via verde agora, e um pouco de azul escuro sobrevivendo no canto do olho.

“Eu pego um ônibus, vou até o fim e volto, eu conheço todas as cidades, em 2016 eu tava muito para cá, muito... Todo dia”. Algumas pessoas já estavam desconfiadas de Jerônimo. Porém, depois dessa confissão inocente as pessoas soltaram um sorriso de canto, bem caladas, e vi um alívio desbravador saindo de suas narinas. Jerônimo era um viajante, para nós, mortais, desencantados com o melindroso rouxinol, odiávamos essa coisa de ônibus, e parecia uma piada alguém gostar de passear assim.

Desci do ônibus, ainda caminhando pelas veredas amareladas do dia, enquanto Jerônimo rouxinava pelos balanços dos ônibus, qual seria o seu próximo destino?


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