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  • Por: Paloma C. Mamede
  • 20/03/2017

COM - CURSO

Flávio acordou às 8. Tomou um café aguado, frio e sem açúcar. Sentou-se com a postura mais-que-perfeita. Sentara. No desespero do calor que comandava seu cubículo, apartamento, começou mais um dia entre os tijolos de papeis. Seus dedos ágeis copiavam a Constituição com o desejo de colar cada palavra ao cérebro.


Flávio acordou às 8. Tomou um café aguado, frio e sem açúcar. Sentou-se com a postura mais-que-perfeita. Sentara. No desespero do calor que comandava seu cubículo, apartamento, começou mais um dia entre os tijolos de papeis. Seus dedos ágeis copiavam a Constituição com o desejo de colar cada palavra ao cérebro. As folhas rabiscadas caíam esvoaçantes ao chão, dançando, fremindo com o vento que emanava da janela.

As horas corriam e mais folhas caíam. Seus dedos já endurecidos/travados tiveram descanso pelo alarde do almoço: Pizza, da noite anterior. Quatro fatias depois... Limpou os óculos, mudou a matéria para os cálculos. A vizinha do andar de cima ligou o som. Uma música alta, estridente, de um tal de Roberto Carlos que sua mãe já amou. Com o furor das melodias mais folhas caíam. Contudo, os dedos travados continuavam os rabiscos com força. O estresse logo inundou a face avermelhada. Flávio entre os sons das canções sutilmente românticas amaldiçoou os versos com todos os xingamentos possíveis. T U D O E S T A V A P E R D I D O. Os papeis fremiam com o vento, com a oscilação da música.

O homem de face avermelhada tacou a apostila pelos ares, e a janela se quebrou. Agora, chovia lá fora. Os papeis se desmanchavam enquanto o moço bradava suas agonias. A música não mais havia. Restara silêncio. Sua ansiedade rugia. E, assim, saiu em busca do seu tijolo-papel precioso. Já era tarde, não havia nada mais que lama de papel para salvar. Não havia mais o que fazer, apenas deitou aturdido, esgotado, no gramado. Sentiu cada gotícula confortável de chuva. Havia seis meses que Flávio não sentia a chuva. Havia seis meses que Flávio não via os ipês amarelados da rua. Um bêbado da rua gritou “boa noite” e por fim “minha namorada é a lua”.

O moço, agora pálido e friorento, fechou os olhos, ouviu o último desejo de sua mãe pelas lembranças: “Tenha um bom coração, meu filho”. A lua a seu ver era fria, sem-curso, sem história, era quase indigna de memória, a lua tinha face de Lúcia, a moça que largara pelo curso do papel. Sentindo a chuva e o calafrio, jurou com as profundezas de um precipício: “Mãe, meu coração tem nota, tem curso”.

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