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A pandemia das cores: Lembrar e Esquecer III - De Brasília


Foto: Jesuso Ortiz

Anne colocou um wallpaper de ipês amarelos no seu celular. Ela queria dar mais vida e inspiração aos seus dias. Estava em casa há 7 meses, trabalhando home office. Vários de seus conhecidos já haviam voltado a trabalhar presencialmente, ela não. Sua rotina se resumia em se levantar, tomar um café, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar… Ela faz revisão de textos para uma editora, vive mergulhada em todo tipo de dicionário e gramática que pudéssemos imaginar.

Ela, como qualquer pessoa da atualidade, estava fora de controle, online em todas as redes. Não bastasse as mil vídeo conferências, reuniões e telefones para resolver picuinhas, ela estava se sentindo sozinha demais para deixar qualquer notificação passar, mesmo aquelas de promoções pareciam muito interessantes. AHHHH, e a fatura do cartão só crescia, cada tédio era convertido em uma compra desnecessária.

Certo dia, acordou e como de costume, levou seu celular com ela à ida matinal ao banheiro. Hoje era um dia importante, iria fazer uma entrega de um capítulo revisado. Enquanto escovava os dentes o celular vibrou. A sua ansiedade falou mais alto. Logo, não podia deixar escapar… “uma notificação”, “uma novidade”, “preciso”. Retirou o aparelho do bolso de forma desajeitada. “crash”. Caiu. Quebrou a tela completamente. Ela viu um pequeno reflexo do ipê amarelo que se apagou em um último arfar, fôlego.

Ficou desesperada. Todos os seus contatos estavam salvos na memória do celular, nenhum estava no chip. Todas as suas fotos, nenhuma na nuvem. Todos seus pdfs baixados em pesquisas do cotidiano de trabalho se perderam naquele último suspiro. A sua vida inteira apagando… Anne, disse “AI”, porque doeu como se fosse ela caindo. Depois, chorou. Sabia que perderia várias e várias de suas memórias ou “coisinhas essenciais”. Sentou no chão com a cabeça entre os joelhos, tentou lembrar qual tinha sido a sua última memória “real”, longe das telas, não lembrava … Quantas lembranças de posts, de toda essa socialização que não se vê e não se toca.

Pegou o telefone fixo, ligou para o irmão que era ótimo com celulares, era sua última chance de ter o seu dia salvo… Não podia perder aquela entrega, devia haver um jeito de salvar o dia. 

- Alô!
- Oi, maninho, tudo bem?
- Não acredito Anne, você lembrou!
- Hammmm, sim… - Anne, não fazia ideia do que ela teria que lembrar.
- Sabia que você não ia esquecer meu aniversário!
- AHHHHH! Claro, feliz aniversário! Hmmm… queria dizer que estou preparando algo pra você, posso te entregar hoje? - Disse ela, muito desconcertada, cruzando os dedos para que ele não percebesse que ela tinha esquecido completamente de tudo.
- Obrigado, Anne, não precisava, passo aí hoje à noite, rapidinho.
- Combinado! Até mais.

Ela desligou, respirou. Ligou o computador, enviou um e-mail para a chefe explicando o infortúnio, apesar de tudo, ela iria conseguir finalizar. Começou seu trabalho calmamente. Fez tudo em um piscar de olhos, afinal faltava apenas uma revisão final. Houve um estalo, se fosse em um dia comum, teria gastado pelo menos metade do dia revisando aquele documento com as distrações das “coisinhas essenciais”. Guardou os estilhaços do que já fora quase um membro do seu corpo. E, foi feliz ao mercado comprar ingredientes para os cookies do irmão. 


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