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A pandemia das cores: Lembrar e Esquecer - De Brasília


Imagem: Minimal Art / Pinterest

A visão de Luna estava completamente focada no barco que virava aos poucos. Que agonia! Vento, temporal, e sua visão ali agora quase coberta de água. Via um homem e uma mulher mais velhos, cabelos negros esvoaçantes, eles levavam a canoa, nadando. A visão de Luna agora estava sobre a água, não sabia como tinha subido, mas estava segura. Escorria bastante sangue de seu braço, mas não sabia exatamente como tinha conseguido aquele ferimento. Sem fôlego. Acorda! 

Mais uma vez aquele sonho perturbador. Quem eram aqueles dois? Calafrio. Levantou correndo e foi ao banheiro. Chegando lá, reparou uma cicatriz no rosto que não se lembrava de ter. Claro, com essa pandemia toda, fazia também algumas semanas que não se olhava no espelho com frequência. Respirou fundo, olhando o braço em um grande susto… Lá estava ela quase invisível, a cicatriz do braço, a do sonho.

O medo passou agraciando os olhos novamente… Quem era aquela Luna do espelho? Aquele sonho já havia se repetido inúmeras vezes, nessa época de isolamento social.

Tantos sonhos fortes tivera antes, mas nenhum tinha se aninhado desse jeito e se recusava ir embora. 

Ainda estava com dificuldade de respirar, lembrando da água, do barco, do vento. Procurou o celular, começou a passar vários stories do instagram. Viu a foto do sobrinho mais novo, tão fofinho, com aquele brilho encantador nos olhos, segurando um balde de pipoca. Era o dia do filme, estremeceu, estava tão sozinha ultimamente, que nunca havia percebido detalhes que agora via claramente, o sobrinho mais novo parecia muito com o seu irmão mais novo que não estava mais ali na Terra. 

“Nossa, Susana, ele tá cada dia mais parecido com o nosso irmão”

“Luna, não quero lembrar de coisas tristes”

“Desculpa, mas quis dizer que ele tá cada dia mais lindo”

“Entendi”

“Susana, você lembra como eu consegui essa cicatriz no rosto?”

“Claro, Luna, esqueceu da tempestade?”

Luna jogou o celular no chão, foi demais para ela. Por que ela não se lembrava? Será que o sonho tinha acontecido, ela era pequena demais para se recordar? Tudo estava emaranhado. É a solidão, querida Luna, ela embaraça, aninha, prende, e mostra abismos que estavam esquecidos. 

Ela decidiu anotar o sonho em uma caderneta. O autoconhecimento nunca é demais não é? “Não quero lembrar de coisas tristes”, refletiu aquela frase escrita naquela rede social que mal postava, mas que via tudo dos outros. Luna, voltou ao espelho, se olhou novamente, tentando entender o que havia se tornado, fazia três meses que não enviava uma mensagem para alguém. Talvez, nesse momento ela fosse aquela criança se afogando, e os pais quando ia poder visitar? Eles que a salvaram no sonho e talvez na vida real. 

Se sentia isolada demais, mas não era só a pandemia, ela já havia se isolado até de si mesma, há muito tempo. De súbito, ligou para a mãe, esclareceu a história, tinha mesmo acontecido, igual ao sonho, uma tempestade de férias. Meu Deus! E, todos aqueles sonhos fortes dos últimos meses, tinham um tom de verdade? Lembrou do irmão, que morreu muito cedo, lembrou de vários e várias. Fez um café, decidiu olhar o álbum que estava trancado na gaveta, aquela falta inteira de cor, de luz, de voz... seria substituída pela memória; o reencontro dos outro e de si mesma.


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