Por que ouço essas explosões que afetam absurdamente os meus ouvidos? Ouço gritos, alguns fracos, outros estridentes, até gritos abafados e pouco agudos. Por que não ouço a melodia do mar? O balançar dos galhos da minha árvore...
Algumas explosões no meio da noite
Por que ouço essas explosões que afetam absurdamente os meus ouvidos? Ouço gritos, alguns fracos, outros estridentes, até gritos abafados e pouco agudos. Por que não ouço a melodia do mar? O balançar dos galhos da minha árvore... Por que não ouço a campainha cheia de visitas boas? Por que não ouço a chaleira com toda a sua pressa de acalmar os dias? Sobra o calor, a euforia, a ansiedade e o atrito:
— Ouço explosões, passarinho azul calado. Você me ouve?
— Ninguém se ouve — Repito para mim mesmo.
Ouvi também estampidos e uma nascente vermelha, avermelhando meus braços, depois os olhos... O coração já estava vermelho.
— Ouço batidas, pequeno pássaro azul silencioso. Ouço batidas no coração do mundo — Repito aos ventos.
Ouço os corações se enfileirando devagar. Ouço explosões, ouço?
Um zunido. Depois, paz, silêncio, breu.
— Não ouço mais nada, pássaro azul sumido e definhado — Repito sem ouvir a minha própria voz.
Por que não ouço? Ao ouvir o barulho do mundo, sinto que se acaba quando todas as cores, infinitas cores, se juntam, iluminam-se. Mas se acaba! Afinal, o estampido mais longo é o último suspiro em meio ao entrecortado estremecido das bombas.
— Adeus, pássaro azul bonzinho e malfadado.
